domingo, 21 de agosto de 2022

porque eu te amo

ès a sucessão do passado

a constante do presente

e o silêncio do futuro

ès a palavra imaginada

feita amor
 

o nenúfar não està sò

sò està sozinho

quem não tem ninguém

par estar somos assim dois

tu e eu eu e tu
 

o amor a pulsar

dentro do meu coração

dentro do meu corpo

a berrar a sentença dentro

do meu cérebro não lhe consigo

dar - lhe voz ela sufoca - me
 

soluço nas minhas palavras

que te chamam

acordo nesta pele

que me denuncia o amor
 

sacudo

as nuvens que me passam

dou sentido a paranóia


 

à noite o Demónio

a dar - me vinho

a embebedar - me atè a raiz

dos teus cabelos

 

de dia

o pássaro no meu ouvido
 

a tua boca a cantar

a tua doçura reflectida

nos espelhos das águas

límpidas do mar
 

coração rebelde

teimoso

quer amar - te e volta

revolto a navegar nessas

palavras em voltas das silabas

encontradas
 

foi devagar

como quem aprende

a caminhar no incerto

com a dimensão do teu

interior acorrentaste

o teu coração ao meu
 

tudo começou a desperdiçar - se

mesmo quando surgiste

achei que seria igual

mais uma paisagem colorida

com cores novas intensas

mais quente mas não deixava

de ser uma paisagem
 

sábado, 20 de agosto de 2022

depois

ver a primavera

a afundar - se pétala

por pétala atè a raiz

rasgar - me a pele

ferir - me atè ao miocárdio


e gravar um singela derrota

mais uma a querer contornar


essa simulação de existência



 

era fácil

fantasiar idealizar

alguém sò porque

e os meus olhos

viam paisagens

que eram o oxigénio

 que o meu jardim

precisava
 

toda a minha vida


 esperei por ti

olhei para ti apaixonei - me

por ti derretes - me pelos efeitos

visuais e dai colorir a vida a minha

volta

falo - te

de poemas de histórias

inventadas à sombra

do calor do corpo

ouço a imensidão do rio

galgando as areias fundas da foz
 

falo - te deste poema

recordo o teu sorriso

o amor que na boca 

dos peixes da foz

ele adormece as palavras

em silêncio


 

a nudez

encobre os espíritos

no pequeno quarto 

que o amor transborda

e os rios desaparecem

do olhar nos instantes

em que as mãos se alinham

nas muitas formas de desaguar
 

ressurges suerguida


 na sua forma de vidrados olhos

contra esse sol que as nuvens cega

na vastidão da pele no horizonte do tacto

as cores num âmago pleno de mar ou o azul

que acompanha a lágrima a felicidade ardente

se espraia


despertas

para alvorada da carne

as sombras nos lençóis

se eleva a noite
 

os lençóis

despedem o sono

abraçam - nos è o tempo

que para
 

è madrugada hoje

o sol não nasce

a noite perdura

na imensidão dos lábios
 

o sol a pesar - se


 o corpo e ter todo

o tamanho do mar

deixa - me

morrer junto ao teu

ombro onde a cabeça

se encosta na eternidade

que começa
 

ès tu

que estás nos começos

do mar e as palavras

vão molhar - te os pés
 

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

a rosa branca

desfolhou - se logo

que o vento a abanou

boquinha riso doce mel

sorria e já chorou !
 

a minha amada

eu escrevo versos de água

que o coração vai ditando

palavra a palavra gela a gota

os meus versos são poemas

derramados !


 

alguém

me prende

numa mente

vadia
 

os anjos

continuam na minha

cabeça todo o dia  !
 

Busco a imagem do violão

para além do que busco

perfeito o teu sorriso

para esconder o serão !
 

Busco

a verdade de uma estação

com o copo na mão

a alegria com a tristeza !
 

Esperei

horas dias semanas meses

um dois três anos o infinito !

esperei em casa um telefonema teu

mas tu não telefonas estás longe não

sei se o dinheiro chega ?


apetece - me despedaçar este telefone mudo !
 

Tudo è a voz humana

que Jean Coeteu

escreveu :

« o silêncio è desumano e a paz morreu »

a dor è a minha droga e o telefone

o meu alimento injecto - me todos os dias

com dores vadias !

 

Sò para te recordar

arranquei o telefone

trago sempre comigo

não vais tu telefonar - me

falo sozinho ao telefone

desenho o teu rosto na praia

e o telefone na minha mão

falo sozinho ao telefone olhando

para a areia mas desligo o telefone

e o teu rosto è apagado pela maré

cheia !
 

Magoam - me cansam - me



 
os poetas intocáveis

ou depuradores de palavras

detentores de enigmas que

apenas consideram poesia

o ilegível o indizível o inatingível

segredo confinado pelo seu deus privado

e precioso a visionários iluminados e abençoados

homens aquém dos outros ou fieis aos seus no dia

em que alguém me convença que isso è verdade

espero estar morto



faria o mesmo que Einstein faria a sua forma

antes de saber o seu destino engulo o poema

e abdico da poesia

o ser humano simples não è incompatível

com o ser humano profundo

não somos descendentes de um mistério

nem lhe vamos descobrir o conteúdo

todos os dias um livro grita e pela frente

há um imenso caminho

toda gente quer ser feliz nesta cratera

o último a sair deixe a porta aberta !

Sentindo a tua ausência

se me atrevo a olhar

e a dizer è pela sua sombra

unida tão suave ao meu nome

là longe na chuva no minha memória

pelo seu rosto ardendo no meu poema

disperso formosa mente um perfume

 de uma amada desaparecida
 

Pátria

è uma palavra que podemos dizer

sem que a maioria do povo a reconheça

ela não pertence ao léxico de palavras

comuns e os políticos a referem quase

sempre com a violência de uma retórica

vã mas seja qual for a substância dos seus

símbolos bronze ou pedra bandeira chama


ou musica ou palavra nòs sabemos

que ela està viva e vitoriosa sobre todos

os obstáculos e desastres


grávida de um futuro de comum liberdade 
 

Quão difícil se torna

desejar a lua de uma noite sem sentido

sobre o sol sem luz da alma cativa

que encerra no silencio do teu fogo cintilante

assim estou eu sem estar mesmo no poema

sò suspiro clamo ou grito como uma árvore

escarnecida que projecta no espaço a suplicante

nudez de braços ressequidos mas traça tambèm


o percurso da ave migratória que a primavera trará 

em obediência a esse circulo vital de solar volúpia

um sò gorjeio de ave branca cujo voo se espraia

no desejo irrompe da concha delicada
 

todas as casas

deviam ter uma varanda para o mar

para que as manhãs acordassem

no vela me inquieto da claridade

as sombras fundeassem frescas

pelas paredes opacas do meio - dia

e os entardeceres rebentassem em

sotaventos


num quarto todas as casas deviam ter uma varanda

para o mar uma janela um parapeito um olhar ...
 

Os passos do Outono

respiram na tonalidade

das gaivotas e nos contornos

lisos das manhãs decomponho

os gestos do meu olhar nos teus olhos

ergueu - se a maresia
 

aqui

somente a sede ardente

e a fonte para a mata - la

aqui céu horizonte e o voo

a fuga a súbita viajem

não conheço não sei outro

pais

o meu amor feliz


ou infeliz porque me escondes

a minha própria imagem 
 

Gozo os campos

sem reparar para eles

pergunta - me porquê

porque os gozo

respondo

gozar uma floresta è estar

inconscientemente ao pé dela

è ter a noção do perfume nas

nossas ideias mais apagadas


quando reparo não gozo

fecho os olhos

è o meu corpo que està entre a erva

 

ès tu que escreves

sò tu me deixas o que guardo

no esconderijo do meu ouvido

há sò tu deixei de escrever

já là estava tudo quando peguei

nisso foi a mim que muito me escapou

e sò em ti o secreto tesouro o musgo

o e o âmago
 

Há sò tu

já não canto è um encanto ouvir

um passarinho e já não digo 

è tão bonito ficares a olhar para tua

esperança
 

Conformismo

passar e deixar um rastro

sem estudada intenção

mas impor o esforço de continua - lo

ou sumariamente apaga - lo com ou sem

intenção
 

No amor

com amor aceita planta cria

meu amor deixa - te onde for !

sê disponível em todo o encontro

em poesia aberta a alma à emoção

demais aceitação ! 
 

Apoiamo - nos nas curvas

 

descobrimos cidades novos horizontes

novos amores chegou o momento

de seguirmos em frente sozinhos de experiência

compartilhada no percurso atè aqui seja a alavanca

para alcançarmos a alegria da chegada ao destino final

è o amor e depois ? o meu peito contra o teu ficamos

os dois a imaginar ?


o meu peito contra o teu a cantar o mar num leito cortando o ar

há todo o espaço para amar ?



Dinossauros em Janeiro

de tempos em tempos

tornam - se no outro

renova - se e sucedem gerações

e coisas são cada vez mais ao fundo

soterrados alicerces piso cova sob

 os passos em que pisas apartados

a reboque ao desconecto de valores

e poderes que podemos cristalizados

cria musica pelo silêncio das armas

embainhadas de tambores silenciados


de corpos sepultados na paz em nome da vida
 

porque eu te amo

ès a sucessão do passado a constante do presente e o silêncio do futuro ès a palavra imaginada feita amor